Nova sede da Petrobras
1. Introdução
A armadilha das inovações formais e da tecnologia
Um edifício transformador que seja uma referencia cultural e tecnológica, pode-se confundir com um exercício formal gratuito, um exercício de design; e arquitetura não é design, nem é uma questão estilística, arquitetura é uma atividade.
Igualmente entendemos que arquitetura sempre foi técnica, e o uso de uma boa técnica consiste em estabelecer combinações singulares.
Não é necessariamente o uso de novos materiais o que define uma arquitetura nova. As singularidades estão no emprego apropriado de técnicas bem conhecidas, da clareza da interface entre o construído e o não construído, e principalmente a consciência de que estamos construindo a cidade.
No fim a inovação formal não é o ponto de partida; é a conseqüência de uma estratégia de raciocínio sobre um território.
2. A Paisagem da cidade
Leitura: a paisagem, como resultado da superposição de ações de diversos interesses na historia, resulta numa curiosa característica da cidade de Vitória: o contraste entre territórios construídos e a geografia dos morros verdes sobressalentes.
Descartamos: construir no topo dos morros destruindo a leitura desse “contraponto”.
Optamos: por afirmar esse contraste salvando e ainda ampliando o potencial de paisagem desta circunstância. E optamos pela continuidade da frente urbana como qualificador da estrutura pública e a presença inequívoca da instituição, na escala e no compromisso com a cidade. Esta opção coincide exatamente com o plano diretor da cidade Lei 5.307/01.
3. Arquitetura como estratégia de um território
Leitura: a (herança modernista) arquitetura que toma distancia do passado e se isola em reflexões individualistas, para reafirmar sua própria transformação, filosofia que o pós-modernismo “abastardou” numa herança que hoje aponta para a decadência.
Descartamos: uma arquitetura como objeto de “design” que usa o território apenas como suporte, estabelecendo bem ou mal, relações circunstanciais.
Optamos: por uma “nova geografia”, una construção impossível de se ler desde um ponto de vista. Optamos por uma arquitetura definida pela estratégia de ocupação do território onde a intervenção potencializa biunivocamente, tanto o território de sua localização como a própria construção. Um hall vertical: coerente com as considerações urbanas expostas, transladamos o tradicional hall horizontal do térreo, por um hall vertical materializando literalmente a interface com a cidade.
4. A terceira paisagem
Gilles Clément. Manifeste du Tiers paysage
Leitura: uma área de 97.000 m² preservada no coração da cidade se torna um campo de excelência para a “terceira paisagem”, um patrimônio da cidade.
Descartamos: a exploração e a espoliação deste local apenas como moldura, como um suporte, como um residual para uma jardinaria de moda ou de um objeto arquitetônico de design.
Optamos: pela coexistência solidária entre o construído e não construído, ou seja, por uma concepção integral, onde o valor da área verde e da área construída tem o mesmo “peso” numa relação biunívoca. As ações na área verde serão as de evidenciar e incentivar a situação existente aumentando a biodiversidade e estabelecendo um contraponto cultural a ser identificado na história da formação do parque.
Na interface com o prédio, onde se propõe um corte no solo da encosta, será exposto o solo rochoso valorizando assim a própria ação do corte e conformando reservatórios de águas pluviais nas cotas mais baixas. Estes lugares serão um ponto de destaque de forte valor paisagístico.
5. Acessibilidade/legibilidade
Leitura: o acesso principal sem dúvida deve estar na Avenida Nossa Senhora da Penha, de hierarquia estrutural.
Descartamos: a sugestão de concentrar num só ponto que induz uma arquitetura isolada, pontos de chegada e saída, e os desenhos de tipo “rodoviário” que acentuam a dicotomia entre os espaços viários urbanos e seus edifícios.
Optamos: por uma “plataforma” de características urbanas, um alargamento ao longo de toda a extensão da frente da avenida. A partir deste largo espacialmente integrado à avenida, teremos os estacionamentos de visitantes e acesso aos estacionamentos dos funcionários no subsolo inferior, com múltiplas possibilidades de entradas e saídas nos dois sentidos da avenida (através de dois acessos em túnel sob a própria avenida) Uma solução que respeita o traçado original de Saturnino de Brito.
Uma praça a +1.5m do solo será a praça de acessos independentes, espaço que naturalmente atuará como triagem dos acessos às diferentes dependências da Sede.
6. A estratégia do crescimento
Leitura: a solicitação de crescimento considerando a solução de continuidade é o desafio técnico central desta proposta.
Descartamos: a concepção literal de duplicação que pressupõe o clone, a simetria, ou seja: “Duas sedes da Petrobras”
Optamos: por estabelecer uma área de crescimento que naturalmente ficará interligada à primeira etapa como um prédio único.
Ainda esta primeira etapa terá uma imagem acabada, (não correndo o risco de um edifício visualmente incompleto) conservando ainda as árvores existentes.
Criteriosamente as garagens crescerão naturalmente mantendo o mesmo esquema de acessos.
As obras da ampliação não produzirão interferências nas áreas de trabalho já que a ala contígua tem funções fechadas ou viradas para os pátios internos, e terão os acessos superior e inferior separados para a execução das obras.
Local:
Vitória, Espírito Santo
Data:
2005
Cliente:
Petrobras
Arquitetura e Urbanismo:
VIGLIECCA&ASSOC
Hector Vigliecca, Luciene Quel, Ronald Werner, Ruben Otero, Thaísa Froés, Lilian Hun, Ana Carolina Penna, Neli Shimizu, Paulo Serra, Luci Maie
Co-autores:
Estudio A2T


Imagens